sábado, 7 de fevereiro de 2015

Amor de Vampiro

Por Mariana Pires e Gustave Caligari


Não, ninguém estava pensando aqui que seria agradável beber sangue daquele que lhe envolve a alma ternamente. Tampouco ninguém estava conversando nessa linguagem ultra romântica num reles chat de boa. Falávamos, dentre outras coisas, de Anne Rice, e nossa frequência amorosa.  Se resume em nós sermos “largados”. Falávamos mesmo sobre nossos relacionamentos e por que incomodamos nossos parceiros. 

Nem todo mundo precisa de alguém sempre grudado, aliás, nem deveria. Nós temos lá uma semana de caramelo e duas de I want to be alone. Concordamos que somos até bastante românticos (sentido amplo, não o byroniano, gente), sei lá, gostamos de flores e alianças, pasmem. Talvez sejamos os últimos românticos, por que o Lulu Santos está ocupado com seu projeto urbano de reunir a zona norte à zona sul. Mas nossos amores nos acham os primeiros egoístas. Pra nós está tudo ok, por que queremos sossego e não ter razão. É preciso entrar em um acordo, despertar pra essa realidade, numa relação. Mas principalmente quando ela já entrou em bodas. Quando o casal já não é mais aquele do começo, e não fala com as pessoas como se fosse um polvo de duas cabeças, sabe o polvo de duas cabeças; que lambe a si mesmo? Daí cada um pode dar atenção a todas as pessoas que estão em volta. E depois começa também uma fase de permissividade excessiva e tem gente que não sabe lidar com isso, se sente abandonado, queria ter a namorada que reclama quando ele sai com os amigos, queria ser a namorada que recebe todo dia um cestinho cheio de ciúmes dos amigos. Um pouco de ciúmes é natural e saudável (?), mas tem caras que invejam a namorada do outro que não deixou este sair, enquanto a dele ousou ainda lhe alvejar com um “divirta-se”. O que é, inclusive, a mais bela e singela forma de insegurança emocional. Do outro lado tem  a abandonada desregulada, que fica louca, paranóica, ciumenta, põe areia no escapamento do carro do fulano, queima roupas e afins. Não é a toa que paixão já foi diagnosticada como perturbação mental. Ou vocês realmente acreditam que os byronistas eram normais? Ora, faça o favor! Se acreditam ainda, se retirem o quanto antes, pra nós byronista é sinônimo de louco.

Ah, sem falar no assunto mais delicado, “traição”. Nessa altura da vida já não acreditamos nessa palavra. I’m human and I need to be loved, já diria o The Smiths, mas ser amado e ter nosso espaço. Geralmente as pessoas traem justamente por que acham uma pessoa que dá atenção. Don’t be ridiculous, don't be this person, tenha dó, não mereces o afago nem de deus nem do diabo.  Pô, respeito aos tesões, a isso não. Respeito ao desejo, mas essa de ficar pra ver se consegue ali uma segunda opção, tenha dó, bemol e sustenido.
Venha a cá, venha aqui pra balançarmos as mão na sua frente e dizer ESSE CIÚME TODO É UMA ILUSÃO PELA SUA CRIAÇÃO MONOGAMICA CRISTÃ OCIDENTAL UUUH.


Não bastando este maldito amor liquido e ainda vêm com a tal da amizade liquida pós-relacionamento. Entendam, yo no quiero ser tu amigo, yo no quiero being nice. É portunhol espanglês pra ver se me entendem, já que na língua materna não processam. Se o amor dissolveu, virou gás, foi pra atmosfera, não seria uma pseudo-amizade sadia que ia salvar. This is called SECOND OPTION. This is called remember. Que é o fundo do poço. Acabou acabou, enfia um ponto final com caneta esferográfica e para de se lamuriar, ver fotos, cheirar roupas, mandar mensagem alcoolizado. Aproveitem e comprem uma dignidade novinha no mercado livre com desconto de 25%, a vergonha na cara estava por um preço baixíssimo na Americanas esses dias aliás. Se tudo isso citado e condenado acima funciona pra vocês, talvez esse amor ainda não tenha derretido ou sempre foi liquido. E de amor e liquido eu já estamos cheios, principalmente nesse calor horrível, muita água de coco e muita hidratação.


Onde os vampiros entram nisso, oras, quem nunca leu Entrevista com o Vampiro? Ah, você, ótimo, tinha que ser. Não importa. Se você não gosta de ler veja o filme. Ou o recente Only lovers left alive. O que tem a ver se resume na pergunta: o que você faria se tivesse que passar O RESTO da eternidade com alguém, dado que você tem... A ETERNIDADE? Será que não enjoaria, não se distanciaria, e se, tal qual o amor de Lestat por Louis, ou Gabriele, ou Adam e Eve (não por acaso os dois vampiros do filme Only lovers left alive se chamam Adão e Eva, o filme está cheio de humor sobre seres que vivem para sempre, se você for um mínimo esperto, tem um certo nível cultural você vai achar que é basicamente um filme de humor, assista, é com o Tom Hiddleston, é aquela porcaria de Loki, naquele filme porcaria que você conhece. E Tilda Swinton, a impecável Tilda Swinton. Essa mulher não, ela não erra hehehe), você pudesse se dar uma folga, rodar o mundo, passar as décadas e voltar com saudade faminta, como quem tempera comida com a fome? E você vai dizer que não tem a eternidade, sim, e engenheiros não fazem plantas do tamanho real de uma estrada, é só criar uma escala, reduz séculos ou décadas para meses ou semanas. Talvez isso resolveria nosso vai e vem de namorados, aquela saudade maligna do ex que você sente. Aquele temor e querer do namoro a distância. Amor de vampiro, esse amor que não vive de aparência, de jogo de possuir, de controlar, de vigiar. 

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Finais são bençãos ambivalentes.