sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Longas cartas pra ninguém VII



Sinto que estou sendo imbecil. Imbecil e mais nada. E tão sem mais, eu não sinto alegria, mas pelo contrário, me comprazo da minha própria desgraça, voltando finalmente a sentir, como a muito não sentia, olhos a marejar em tristeza; maresia de tristeza: tristezia.

E que tão sumariamente me sinto já errado em retroceder um passo, nauseado pela minha condição, e por fim com a existência de todos os outros. O que é verdade: como um deprimido, eu não tenho apetite. Para o jantar, as educadas, que são leves, e quase não indesejadas.

Mas isso não me dá acesso a me fazer de ruim, e tentar me convencer que não mereço viver.

Quando se quer um tempo, só um mínimo tempinho, da sua cabeça, é que ela fala mais. Pare de me tratar assim consciência! Eu ponho minha alma no que eu faço! Tudo que eu me proponho a fazer eu faço bem. Não te dá direito, por um mero deslize, me tratar desse jeito.

Mas morrer não. Eu não tenho vontade de morrer mais. A vida tem braços muito longos, e eu espero que eles me segurem. Não por muito, muito tempo. Eu sou muito bom com planos. Então, somente até eu crescer e ter alguém não só pra lavar roupas e fazer o que comer; e comer. Mas dançar e sonhar sobre o paraíso. Só até eu morar num cantinho sossegado, não perto do mar, nem no campo, sou bem urbano, não muito litorâneo, mas como casinhas bonitinhas, lugares um pouco altos e silêncio. Com carros passando longe, pra saber que há civilização formigante, não nem tão perto, nem tão distante. Árvores, mas não tocar terra, não pisar areia, mas sentir ar, esperando a temperatura me abraçar. Sem garras de caranguejo ou musgo, mas vento fresco e garrafas de álcool docinho, sorriso e carinho. A vida tem braços longos, espero que eles me segurem. Que, muito além da burocracia casuística da mesa de jantar, me façam pular no ar.

E como todo mundo, me dê acesso a olhar fixamente, toda manhã, seu mais belo desalinho.

A vida tem braços longos, espero que eles nos segurem.

Eu sei disso, acho que conheço isso de um hino.

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Finais são bençãos ambivalentes.