sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Der Baader-Meinhof Blues Gruppe

"O grupo Baade-Meinhof" era uma organização de extrema esquerda alemã, uma fração armada do exercito vermelho (Rote Armee Fraktion – RAF), que iniciou em 1970, e não é só coisa de 70 à 80, logo antes de Brasilia nos dar Legião (82 a 96, a música está no disco inicial de 85...?). mas perdurou até 1998, quando uma carta de oito páginas, datilografada em alemão, foi enviada à agência de notícias Reuters, assinada com o logotipo da RAF - uma metralhadora MP5 sobre a estrela vermelha - comunicando o fim das atividades do grupo, depois de 28 anos de existência como organização.
Jovens. Heróis, mártires, criminosos? Seria por que "A violência é tão fascinante, e nossas vidas são tão normais"? Não, e sim por que "essa justiça desafinada, é tão humana e tão errada", vai saber lá qual é essa justiça, a burocrática, que se faz de cega, humanitária que a todos finge tratar como igual? A justiça dos magistrados, dos caras de toga é mais justa e humana que quando da massa se revoltam uns e por meio da violência quer virar o jogo? Qual seu custo, pegar em armas? Talvez! “Nós assistimos televisão também, qual a diferença” em fazer revolução pelas próprias mãos, se sabemos o que acontece? O sacrifício de poucos justifica a "liberdade" de muitos? 

“As guerrilhas urbanas operam no vazio entre o estado e as massas.” Andreas Baader


A violência parece fascinante e não normal, apartada de nossas vidas, mas ela acontece o tempo todo, é fascinante, mas não distante. 
“Você passa de noite e sempre vê, apartamentos acesos”, confortavelmente as pessoas podem assistir a revolução de suas janelas -  naturais ou as eletrônicas.  Daí tudo parece ser tão real. Mas quem  não  viu esse filme também? Assistir é uma coisa, saber seu custo é outro. Estar no meio é outra coisa! Andar nas ruas e ouvir gritos, ver pessoas correndo, achar que pode ouvir alguém chamando seu nome, mas não é! São muitos gritos juntos! Que vazio. Um monte de corpo cheios de vazio! Corpos massificados, corpos sem individualidade, corpos quentes, que em prol de uma liberdade são uma massa fria. O sentimento não é bem o motor da revolução, afinal amar ao próximo é tão démodé. A revolução se esquece da liberdade, ao lutar pela liberdade. Faz tanto sentido ir contra tudo que se fez pelas linhas socialistas até hoje, quanto contra as outras formas políticas.

“Não estatize meus sentimentos
Pra seu governo,
O meu estado é independente.”

Como já diria Churchill, o pior regime é a democracia, fora todos os outros.  Qualquer regime governamental ou contra-ação, ditadura, democracia, socialismo, militância comunista, não obtém sempre sucesso na questão libertar, mas em aprisionar tem o máximo do êxito. Creio que o Renato, esperto como era, não tinha uma visão diferente da que estou tendo agora, o comunismo é conseguido através da estatização de forças privadas, e não sem uma uniformização da população, os outros podem ser inocentes de achar que essa frase grita pro governo que vigora, mas acho que ela grita mais ao socialismo, que até agora só falhou: não estatize esse poder privado, meus sentimentos, não quero ser massa, quero independência, mas maior que essa.

“Protesto é quando digo que não concordo com algo. Resistência é quando me asseguro de que as coisas que discordo não acontecerão mais.” Ulrick Meinhof

Faz muito sentido falar dessa música em todo o contexto desse nome “Legião Urbana”, uma banda, com questionamento político, mas de uma sentimentalidade incrível. Não adianta ser triste para ser militante! Mesmo que o que combatamos seja abominável. É um elo de desejo, um vínculo sentimental mesmo, que deve ligar a oposição ao controle! Não é o que tiramos das tribos urbanas? Elas parecem não vencer o poder, ninguém parece ter alcançado seu objetivo na sociedade, que é derrubar esse poder. Acontece que ninguém sabe bem o que é o poder, e por isso em cada espaço pequeno é possível vencê-lo, e nisso as tribos urbanas, por exemplo, se saem bem, não? Talvez nem saibamos o que é liberdade, se não lutarmos por ela; se ela se der aos nossos olhos um dia qualquer... Essa é uma luta complexa, não é bem delineada, como um exército pode vencer o outro, como a legião romana vencia a todos eles. Certamente é válido terminar com o lema de um vencedor dentro do espaço que se propôs, que conquistou esse espaço dentro da malha do poder. Faz muito sentido pra mim agora, que esta música esteja no primeiro disco, abrindo-me “as portas da percepção” sob o que “deve” ser a Urbana Legio.

URBANA LEGIO OMNIA VINCIT!

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Você jura que está me mostrando a letra dessa música?

“Entrar na sua linha do tempo e ficar vendo seus posts é um dos meus passatempos favoritos, nesse mundo online onde tudo é Clarice Del rey e Lana Falcão. Faz um blog! Ou é muito mainstream?!”
É com essa frase inspiradora de Zadorinha, que eu venho fazer a coisa mais perigosa que se há de fazer na face da Terra. Criticar música.

Criticar música é algo muito perigoso, pois vale lembrar a máxima “gosto é gosto”.
Exponho meus preconceitos injustificados de entrada, Chico Buarque, não consigo gostar de Chico Buarque; Caetano tem fases boas e fases tenebrosa, chegando ao ápice de regravar Nirvana, banda cujo frontman me passa uma depressão tão profunda quanto Lana. Não é este tipo de coisa que quero fazer aqui no momento. Acho que deveria reinar um consenso absoluto de cada um pegar seu gosto e enfiar no cu, pois seu gosto se impõe sobre o meu a todo momento! Você coloca seu carro em frente a minha casa, você coloca o som alto, você não usa fone de ouvido no ônibus! Então, criticar música é logo, acima de tudo, criticar a falta de respeito com o ouvido alheio (alheio, para as mentes mais desavisadas é o que não é seu, funk no ouvido alheio deveria ser considerado assédio, pois toca uma parte do corpo de outra pessoa, sem o consentimento dela). Logo, como somos obrigados a lidar com o gosto extremamente diversificado das pessoas, criticar música é, em segundo lugar, criticar a massa uniforme de sonoridade a qual somos expostos todos os dias. Não é meu objetivo julgar que rock é melhor que funk, eu não sou A Razão. Dá-se conta agora de que ambos os defensores dos estilos aqui são equivalentemente chatos pra caralho. Não é meu intuito menosprezar uma pessoa que não está ouvindo Beethoven neste momento! Porque eu mesmo não gostaria de estar ouvindo Beethoven, ou Bach, ou Chopin neste momento, pelo simples fato de que prefiro Vivaldi e imensamente mais Mozart! Bem, quando eu sinto esta pena das pessoas, eu, como herói, devo, claramente nos diz o bom senso, colocar Queen of the Night no volume máximo, para que os vizinhos, OUÇAM MOZART! (e sim, eu faço isso, em algumas culturas se chama Vendetta, vingança, dado que eles me impõem sertanejo, funk e Avril Lavigne em domingos em que eu nem acordei ainda, eu queria ter silêncio, nem as minhas próprias músicas eu queria ouvir!)
Eis que diante de toda esta mediocridade musical que nos impõem, surge na aceitável MPB, uma baixa ralé, em um modelo obviamente americano, de meninotas meio bobotontas, meio menina moça, selelepes, com músicas com um tom moderado de humor, multi instrumentistas, que fazem coisas muito fofas com um violão,um banjo, um cavaquinho, um ukelelê, um berinbal, uma arpa de eslasticos e caixa de sapatos, uma vasoura com fios de nilon, todo e qualquer instrumento de cordas popular nas mãos.

Claro, há pouco tempo conhecemos o deslumbre Malu Magalhães, perfeito exemplo, que é fã de Johnny Cash e Bob Dylan, todas essas meninotas querem ser Bob Dylan, mas acontece, que Bob Dylan... já vem a ser Bob Dylan, desde de que ele nasceu. É a mesma coisa que comprar um livro do Eike Batista, pensando que você vai ser Eike Batista. As pessoas poderiam se contentar em ouvir Cash e Dylan de uma vez, que já tem algumas músicas chatérrimas por sinal, não era preciso mais. Mas não. Elas ouvem Malu Magalhães, que em perfeita ilustração da sua obra tem aquela música Xylophones, todas essa meninas pra mim são como uma criança autista tocando xilofone, no mais exuberante tédio que o ouvido pode concatenar! Então surge um paralelo mais deprimente ainda lá fora a ser seguido. Uma espécie de moça mais moça, não meninota, com vestidos longos, cara de dona de casa cheia de lítio, uma mulher cujo psiquiatra entope de antidepressivos e estabilizadores de humor, perdida em sua zumbilência ela gira em torno de si mesma, e resmunga versos depressivos a serem compartilhados nas redes sociais. Não nos bastasse Mallu Magalhães ter se tornado esta mulher, do dia pra noite, os enlatados nos deram Lana Del Rey também. Coincidência?

E não nos bastasse Mallu e Tiê, que só sabe dançar com você, ganhamos Clarice. Eu, que já não achava que se possa ficar velha e louca aos vinte, que já não achava que neguinho nenhum sacava a minha esquizofrenia, tive que me encontrar decidamente negando que a sua loucura seja um pouco igual a minha! (percebam que riqueza lírica! Que coincidência em tratar de patologias psicológicas inerentes a todo ser humano! Que brilhantismo!)
Nossa música, que pode por diversas vezes se orgulhar de tratar com recursos lingüísticos muito mais superiores para suas letras, que muitas músicas estrangeiras, que consegue, por vezes, usar de metáforas muito mais ricas, que o inglês (não, o português não é superior às outras linguas pra expressão de sentimentos, é você que é burro que diz isso, você que não é bi, tri, quadrilingue, você que malemá sabe português que usa este argumento, eu disse POR VEZES), para frisar a fascinação por um olhar, que pode dizer além de look into those angel eyes, that shinning bright and deep eyes, que este olhos são como uma carícia donde a alma encontra seu mais profundo recôndito, onde, longe, se colocaria ontem e hoje, e sempre, carente, olhar rente. Sim, pode se servir de aliterações (esse jogo de palavras com terminações iguais repetidamente que fiz), metonímias (substituir um termo por outro, como ao invés de ouvir devolva-me, eu diga, vou ouvir Adriana), catacrese (substituição do verdadeiro nome de algo por outro que não lhe é característico, como o pé da mesa, o dente de alho) e sinestesia (usar de um sentido pra descrever o que não lhe cabe, como "sentir com os olhos", "ver a cor da música"). Com todos esses recursos, que eu confesso, gosto muito de ouvir Skank, por que encontro neles, e claro na Adriana Calcanhoto, não bastante não ouvir Bob Dylan, não se pode ouvir Adriana, Marisa, Bethânia, Gal Costa, Clara Nunes! Não, existe uma inovação, algo magnífico que bateram no liquidificador que vocês devem ouvir, gente! Assim como não há contentamento em ouvir Madonna, Michael Jackson, David Bowie ou Roisin Murphy, por exemplo, inventaram Lady Gaga, e a intertextualidade dela com estes artistas precedentes é obviamente descartável. As musas pop de hoje são muito mais confiantes, decididas, elas colocam os pés abruptamente sobre uma cadeira com muito mais ênfase! Beyoncé faz movimentos bruscos de pescoço de um lado pro outro com muito mais imposição! A imposição de uma negra americana re-sig-na-da!

Que se deva ouvir só os clássico então? Tudo que é novo é chato? Ué, mas quem disse que é novo? Por certo é chato. Isso é inegável.

Eu tenho a mais densa preguiça de ouvir o que todos estão ouvindo. Eu, aliás, começo achar intrusão certas recomendações, eu não recomendo minhas bandas a todo mundo. Elas são só minhas, eu as achei! Vá procurar as suas! Síndrome do underground? Não, se ta tocando David Bowie na novela, eu to pouquíssimo preocupado, eu tenho uma síndrome de indivualidade, isso sim. Isso é outro assunto. O que eu dizia mesmo era sobre a diversidade de gosto de vocês. Que ouvem coisas iguaizinhas, e ainda recomendam que os outros também ouçam, quando eles tem um ouvido pouco menos apurado, e não conseguem diferenciar, como vocês, as nuances diversas destas músicas bobildas dessas folk babies. Que ouvem Mallu, mas não ouvem Dylan. Era isso, não? Ou estou ficando velha e louca?

quarta-feira, 24 de julho de 2013

O que é poema em linha reta? - pesquisar

Que bom que vocês conhecem Fernando Pessoa e seus três heterônimos, Paulo Leminski, Ferreira Gullar, Oswald de Andrade, Mario de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Mario Quintana, e outros grandes brasileiros, pra ficar citando a todo momento! Nossa, como transborda meu coração de alegria ver que vocês conhecem de poesia e literatura brasileira e citam autores tão diversos. A cada perfil que eu vejo um autor renomado diferente! Nunca vejo um autor repetido, como Caio F. Abreu duas vezes no dia! NUNCA!
Vocês citam Luis Fernando Veríssimo, e Stanislaw Ponte Preta, e Mario Prata pra serem ácidos, irônicos e bem humorados! Minha alma se alegra! As citações de vocês são tudo que pedi a deus! Ricas, densas, diversas, conexas! Minha alma se preenche em encanto melodioso! Adoro como vocês entendem Nelson Rodrigues também! Todos os dias alguém cita Nelson Rodrigues! Vocês lêem demais! Parem com isso.
E dos autores internacionais? Sempre um Oscar Wilde na Timeline, um Orwells, Huxley, Kafka! Meu, olha, vocês são demais pra mim! 

Vocês entendem de literatura e poesia brasileira como nunca dantes eu havia visto! Mas de filosofia vocês dão um banho mesmo! Minha vista se salta sobre si mesma! Parece que olho um horizonte inexplorado! 

Quando vocês citam filósofos vocês sabem toda a coerência que a frase, remodelada para um modelo de auto ajuda, da citação tem no pensamento daquele autor! De Santo Agostinho a Nietzsche, vocês lêem muito mais do que todos os filósofos já leram em uma vida! PENA QUE VOCÊS NÃO PRODUZAM, NÃO TENHAM O FOCO QUE NIETZSCHE E SANTO AGOSTINHO TINHAM! QUE VOCÊS LEIAM PRA CACETE MESMO! MAS SÓ FALEM BOBAGEM O DIA INTEIRO! QUE TODOS LEIAM PRA CACETE! A MESMA COISA! QUE AS LIVRARIA HOJE EM DIA EM MEIO MATERIAL ESCOLAR, CD, DVD, TUDO DO CREPUSCULO, CINQUENTA TONS DE CINZA... NOS BRINDEM ATÉ MESMO, INUSITADAMENTE, COM LIVROS! Infelizmente não conseguimos achá-los, e compramos Paulo Coelho.

Daí acontece que você não é capaz, de quando lendo um livro atual, entender ou buscar a intertextualidade dele com outros. Vocês que lêem terror, por exemplo: O REGOJIZO QUE RECOBRE-ME POR OUVIR FALAR EM STEPHEN KING, ALGUÉM QUE TERMINA TODOS OS LIVROS DA MESMA FORMA, É IMENSO! STEPHEN KING, QUE NOS FAZ CRER, NO MAIS ALTO SALTO DA CRIATIVIDADE, QUE O MAINE É ONDE TUDO DE SOBRENATURAL ACONTECE NOS EUA. Assim como a brasileira Maria José Dupré, autora do cachorrinho samba, dá aos personagens donos do cão o nome de Maria, que como a própria, é escritora, e Leandro, que assim como seu marido, LEANDRO, também é engenheiro! Vocês que leem terror, que por alguma sorte conseguiram ir, em Anne Rice, além de "Entrevista com o Vampiro", e chegar na crônica vampiresca de número 4, se não me engano, "O Ladrão de Corpos", nunca irão entender a intertextualidade com "A coisa na soleira da porta", a não ser que a autora diga, grite: LEIAM H.P. LOVECRAFT! Mas vocês não lêem Lovecraft, tão pouco Poe. Vocês leem Stephen King. 

E depois, nego vem me chamar de cabeça vazia, de pseudointelectual, e eu vou dizer o que? Pedir desculpa, claro, pois diferente dele, neste momento não estou lendo A Odisséia, pois uma pessoa que me critica, é óbvio, deve não ter grande preferência pela Odisséia, mas ainda preferir a Iliada, e ler o Inferno de Dante só pra ter assunto com os amigos! Que defende que a censura popularizou Camões, pois toda semana tinha um versinho dos Lusíadas no jornal! Essa pessoa nunca deve ficar preguiçosa, sempre que lhe perguntam o que ela fez no fim de semana ela diz que foi ao MAM, ver a Tarsila. Que fez de tudo pra ir ver Carmem no teatro municipal, mas não pode, por que se atrasou em sua caminhada, onde encontrou um amigo, que lhe tomou tempo, discutindo a falta de densidade da leitura dos jovens hoje em dia! Esta pessoa é perfeita! Que assim descreve Fernando Pessoa em "Poema em linha reta", enquanto ele, por vezes tem sido relez. 

Esta pessoa escreve sonetos ao luar, suas redondilhas são inebriantes, cada estrofe é um lágrima... QUANDO EU SEQUER DIVULGO MEU BLOG PORQUE SENÃO NEGO VEM QUERER QUE EU LEIA O BLOG DELE! Que só tem as piores poesias que um ser humano poderia escrever
Porque nego acha que escrever poesia é só
escrever uma linha
embaixo
da 
outra
Gente que ao escrever usando alma, sangue, anjo, anjo negro, negro, escuridão, véu negro, céu negro, lágrima, lágrima negra, etc., o torna um mestre em versos e prosa gótica, que Alvares de Azevedo não morreria do mal do século, tuberculose, morria cuspindo sangue, mas de desgosto, por não ser tão original quanto um ser desses! 

sábado, 13 de julho de 2013

Eu, Pierre Rivieri, que degolei minha mãe, minha irmã e meu irmão. Um caso de parricídio do século XIX apresentado por Michel Foucault

"Eis que criadas camponesas matam sem razão, mas cruelmente, as frágeis crianças que amam, que eram confiadas aos seus cuidados. A mulher de um jornaleiro, passando necessidade, não mais suportando os gritos de fome de seu filho de quinze meses, golpeia-lhe o pescoço com um cutelo, sangra-o, corta·lhe uma coxa, que come. Ela conservava, no entanto, em plena miséria, uma cabra, um pedaço de jardim, alguns repolhos. Antoine Léger, vinhadero, deixa a sociedade de sua aldeia, vive nos bosques como um homem selvagem, agride uma menina e, não podendo violentá-la, abre-a com uma faca. chupa-lhe o coração e bebe-lhe o sangue"


E aí, o que você acha que é? Literatura? Hollywood? Sônia Abrão conseguiu um furo!?


Pois são ocorridos registrados em anais de higiene publica na França, em 1835, sim, estou chocado, mas ainda mais que isso fascinado pela análise que apresenta a obra onde descobri isto, que foi por acaso, em um livro organizado por Michel Foucault, onde junto a acadêmicos do College de France transcreveu o caso “ Eu, Pierre Rivieri, que degolei minha mãe, minha irmã e meu irmão”, este é o título do livro, pois é algo escrito pelo próprio parricida em um manuscrito que fez na prisão e se tornou peça chave do julgamento. O motivo foi ver como sua mãe fazia seu pai sofrer, sua irmã tomava partido ao lado desta, e o irmãozinho serviu de bode expiatório “O irmãozinho foi golpeado primeiro por amar a mãe, e também por ser este o único meio de jogar a cólera do pai contra ele, pois este o amava muito, e assim sua morte seria menos lamentada pelo pai.”  Ou seja, que o pai dele o odiasse por matar aquela criança tão querida, a ponto de esquecer de se apiedar dele, e desejar que ele sofresse a pena dos parricidas, por tal ato. O garoto tinha 7 anos, a mãe estava grávida de outra criança, sete meses.

Ao que isso nos remete no livro não é o que primeiro salta a vista, o clássico “no meu tempo era melhor...”, certamente você já ouviu uma pessoa idosa falar isto, o Foucover da Unicamp, o carequinha simpático, Lendro Karnal, que lembra mesmo o Foucault, já diz que sua avó diz isso, e ele a lembra “mas vó, a senhora viveu a segunda guerra, centenas de milhares de pessoas morreram em campos de batalha e câmaras de gás”. A utopia de pensar que no passado tudo era mais calmo, quando o que não existia era veiculação imediata dos acontecimentos. Estes casos mesmo podem ter tido pouca repercussão, mas não o de Pierre, que foi analisado por médicos para que se constatasse se era são, e por fim teve seu caso disputado pela justiça e pela psiquiatria, artigos de jornal, e cartas ao mesmo jornal depois, concordavam com a não condenação de Pierre a morte.. Até que o próprio rei comutou a pena em prisão perpétua, pois se chegou ao acordo de que ao menos a hora dos assassinatos aquela pessoa não fazia jus a razão. Anos depois, mantido vivo em reclusão, ele se enforca na solitária da prisão, tal era seu desgosto por não saber que merecia aquela pena, mas análises exteriores a toda sua vontade, vieram para lhe atrapalhar. É justamente  a intenção do livro mostrar o embate de discursos travado em torno dos culpados, e não mostrar a violência do primeiro período da idade contemporânea pra dizer “uau, que chocante, também faziam isso sem mídia pra animar”, e daí podemos ver que não é o vídeo game, não é o filme, que influencia por si só em uma ocorrência violenta, mas outras causas sociais, lembrando Karnal novamente, que a história humana é violenta, a história mundial é violenta, o Brasil não foge a regra, os portugueses que trouxeram isso pra cá, certo? Antes viviam aqui tranquilos indígenas, que por exemplo, invadiram aquela costa que seria a Bahia, onde Cabral chegou, e devoraram os povos sambaquis que ali viviam. A violência é sempre exclusivamente do outro, do estrangeiro, do vizinho, do rei, mancomunado com a Igreja naquele tempo que fantasiamos, não de nós, não de nossa cidade, do nosso país, daqueles camponeses obtusos como índios.

A causa social para a potencial crueldade destes camponeses era que viviam passadas três décadas da revolução francesa (a Revolução durou de 1789 a 1799, lembrem-se que estamos em 1835), que de liberdade só dera a alguns a possibilidade de possuir, de ter terras próprias e poder explorar os que não tinham, que continuavam pobres, ou obrigados a trabalhar arduamente pra sobreviver de sua propriedade. Os médicos começaram ir até esses camponeses, pois se via que era melhor conservar, digo prevenir do que comprar outro, digo remediar, era melhor cuidar dos que se tinha, do que deixar morrer para ter que adquirir outros. E os médicos viram como eles eram rudes por dentro e por fora, pele grossa, cheia de feridas. Por dentro ardia o ímpeto que não era mais contra o contrato nocivo com o soberano, pagar tributos, trabalhar em algo que nunca seria seu, “Donde os ódios entre contratantes e, Michel Foucault sugeriu-nos a idéia, o novo tipo de criminalidade camponesa (crimes interiores na família, ou sancionando a relação de propriedade, de arrendamento, de cultura de terras etc.).” Ou seja, desapareceu o rei, dono de toda terra, a monarquia foi reformulada, desapareceram os crimes contra o rei, que bem sabemos, e Foucault bem evidencia em Vigiar e Punir, uma de suas obras mais famosas, como eram punidos, guilhotina, forca, esquartejamento, tudo em praça pública, e os pedaços eram expostos, que servisse de exemplo até depois de sua morte aquele que feriu a lei, pois a lei era a palavra do sagrado pai de todos, o rei. 

Diminuíram então, por exemplo, saques aos castelos, aos arrendatários de impostos, e apareceram crimes mais delimitados, contra os novos proprietários de terras e até a própria família, cerca de 10 a 15 parricídios eram registrados por ano, diz o livro, aliás. Ou seja, o equivalente a uma Suzanne von Richtoffen por mês. Pierre, por exemplo, era um alienado, ou ser humano perverso? Era insano, por isso matou, ou matou com total razão, sem arrepender-se depois, só esperando sua condenação? Ele possuía escrúpulos religiosos, de inicio até dizia que era Deus quem o havia ordenado, e que ele conhecia a palavra de Deus, depois admitiu descumpri-la, matando, mas em uma boa causa, ainda que isso não lhe desse o direito de permanecer sem pagar por ela, era exatamente o que ele queria.

Os debates médicos-judiciais divergiam entre si, em meio a tudo isso a palavra do próprio criminoso registrada, seu desejo de pagar por seu crime, de morrer como mártir da salvação, tanto que se negou a assinar o pedido para recorrer da sentença, até que o advogado de defesa e o pai tanto insistiram.

Toda sua vida resumida, todo o sofrimento que a mãe perpetrava ao pai, todo o senso de justiça e heroísmo que empreendeu para livrar o pai daquela insana. A palavra dos homens da lei, que queriam a condenação, das testemunhas oculares, depoimentos de conhecidos sobre a vida da família e os atos de Rivieri outrora, dos médicos, que alegavam sanidade, dos médicos que alegavam insanidade, visível em seus delírios juvenis, e sua descendência, até mesmo a mãe poderia ser louca para fazer da vida de Rivieri pai tal inferno, ela lhe pedia coisas e depois dizia que comprara muito caro, que vendesse, então dizia que vendera muito barato, queria viver apartada dele, quando estavam juntos não queria deitar-se com ele na mesma cama, lhe tirava as penas do travesseiro, lhe deixava sem nada com que se cobrir a noite, mas afastada fazia-o ir até outra propriedade que tinha comprado para ela para trabalhar nela, ou contratava outros, dizendo que ele os pagaria, contraia dividas só por maldade, o homem tinha que vender terra, animais, etc., para pagar, ele não revidava, mas quando o fazia ela contava a todos como a maltratava aquele homem, ia até juízes, promotores, etc. e a todo momento o pai de Pierri tinha que ter audiências com estes para se explicar; uma vez vendeu uma propriedade e teve que tirá-la de lá a força para que o fazendeiro pudesse ocupá-la, tirou primeiro os móveis, e depois teve de arrastá-la até a carroça para levá-la embora. Sua filha conhecia de todas as maquinações e permanecia ao seu lado. Quando Pierre executou o seu plano partiu dizendo a vizinhos que agora seu pai estava livre.

Dentre o todos os discursos sobre o criminoso, ainda há o discurso do criminoso, que assim não se julga abominação, e sim herói, benevolente, era assim que eles, sem saber, claro, os oprimidos, se faziam ouvir. Voltem ao cabeçalho se não se lembram dele, depois leiam essa continuação que é com a qual concluo essa exposição. "Uns e outros ficam abatidos por seus atos. "Esta criança, diz a primeira, quis poupá-la de viver como eu, solitária. Sem alegria, mais vale morrer." a miséria. diz a ogra. Deus me abandonou." "Tinha sede, explica o ogro." Em alguma parte suas confissões gaguejantes anunciam: "Era a mim mesmo que matava". E Pierre Riviere que coroa a linhagem memorável, não grita para os vizinhos "eu matei", mas "eu morro por... meu pai" (memorial de Pierre Riviere visto anteriormente)."
Finais são bençãos ambivalentes.