domingo, 25 de março de 2012

A psicologia do atrofiado

Atrofiado de sentimentos eu chamo aquele que por ter ficado muito tempo sozinho, que tenha sido furtado de ter alguém pra compartilhar seus sentimentos mais íntimos, se esquece de certa forma como é ter companhia amorosa, ou como tratá-la, ou como conquistá-la, e por fim atalha ao fim de qualquer sentimentalismo confessando a si mesmo que se não pode ter o que quer, e se o que quer é isso, então não precisa querer o que tem. Se desvinculando do sentimento piegas que se expressa por ai tão bem na boca do povo na citação Shakespeariana “Só porque alguém não te ama como você quer, não quer dizer que não te ama com tudo que tem”. O atrofiado diz que essa pessoa pode pegar o seu amor e... bem, fazer o que quiser dele, pois se alguém não lhe dá o que você quer, o que lhe obriga a dar de mal grado de volta a ela algo que você também não queria, que é apenas a amizade? Atrofiado é todo aquele que então se reserva de demonstrar sentimento exacerbadamente pra sua própria segurança, num dado momento, e a partir daí acaba se adaptando tanto a seu intento que mais que naturalmente depois não saberá como, depois, em que quantidade, ou quando começar a fazê-lo fluir de novo.

A autopreservação deve superar a ideia de altruísmo imposta pelo senso comum, vivemos em sociedade e devemos nos ater a respeitar, colaborar, conviver pacificamente, etc, mas não simpatizar e amar a todos. Se alguém já sentiu que tem demais de uma coisa e de menos de outra, esse alguém é um atrofiado. Admitir uma convenção ao invés de disfarçar de sentimento não faz mal ninguém também. Perdemos até a noção de coleguismo. Colegas são pessoas que não escolhemos, no trabalho, na escola, em sociedade, nada tem de sentimento nisso. Eu mesmo proponho sempre a mim uma instituição de “em que podemos ser úteis um ao outro” quando começo a conviver com uma pessoa, esse é um pacto que todos deveríamos ter conosco abertamente, em toda relação que iniciamos. Autopreservação é ser sincero consigo mesmo, e assim evitar que o subconsciente se preocupe em nos alertar disso. Eu mesmo não me lembro de nenhum sonho há muito tempo. Meu subconsciente deve se ocupar muito pouco no sentido da vazão dessas coisas. Sendo mais explicito, é admitir pra si as coisas mais horríveis que você mesmo possa pensar, pra que elas fluam por sua mente consciente, ao invés de ficarem te atormentando de um lugar mais obscuro. Admitir que você odeia tal pessoa, por exemplo, vejam que digo admitir e não seduzir-se a ideia de realmente odiá-la, pra mim ódio é tão natural quanto amor, e porque não? Ódio deve vir de forma tão natural quanto qualquer outro sentimento de admiração ou repúdio, ou seja, não querer odiar, querer odiar se existe, é muito superficial.

Admitir que na negativa de amor romântico a amizade é forçosa e indesejável, que não, não é melhor do que nada, e sim nada é que é melhor; ser azedo, mesquinho e orgulhoso nesse sentido, negar esse prêmio de consolação, ajuda a elevar o ego. Se você não tiver ego elevado vai cair em todas as pancadas que te derem. Admitir que fazer mal a alguém te daria muito prazer é mais que humano. Rousseau é um grande utópico sonhando com o homem naturalmente bom. Antigamente o homem não poderia de modo algum guardar ressentimento violento, sendo que acabava sempre dando vazão na caça, ou na guerra, mas hoje toda nossa socialização e civilidade nos tolheram disso. Não podemos fazê-lo, mas porque não podemos sentir?

Admitir seus mais obscuros sentimentos irá te salvar de que eles transbordem depois, e saiam por si só numa missão mais perigosa, que é realizar a vingança que o impotente sempre guarda dentro de si. A vingança do instinto humano vai além de se direcionar pra real vitima, pó se direcionar a si mesmo ou outro alvo inocente. Admitir que você não gosta de um familiar, mesmo de seus pais, de seus irmãos; admitir que você não se importa nenhum pouco com alguém, ou que ainda pior, quando esse alguém sofre, por dentro você sorri; que você, justificadamente não gosta de crianças, elas são inocentes, você também já foi criança, e também será velho, mas e daí? Isso não quer dizer nada, só que você não gosta de algo. Veja que sua raiva já se desreprimiu em 50%, você mantém a paz na sociedade e consigo mesmo, não quer dizer que você sairá matando as pessoas que não gosta. Mas pode se dar ao direito de “não ligar pra elas” livremente. O cristianismo nos impôs essa ideia medíocre de amar a todos, num golpe de imposição da igualdade pra pessoas que não são iguais. Ou seja, uma moral única que não se encaixa a todos os padrões, mas quer se valer como universal. AMAR A TODOS! AMAR O PRÓXIMO! Num raio de quantos metros será que Jesus se referia ao próximo? Não é blasfêmia, nem brincadeira, há quem defenda que Jesus quis apenas dizer com isso amar a comunidade, o próximo mesmo, os que convivem conosco de forma direta e interligada. Quando o homem não é somente amor, é pulsão de vários sentimentos, o cristianismo vem tentar podar os sentimentos que nos fazem vivos, afinal, o que é a vida pra religião monoteísta? A vida está no além, o que é a que vemos? Nada.

Bem, pra onde interessa: Chutar traseiros de gente que coloca frases como aquela nos status. Uma pessoa que adere ao prêmio de consolação ou é porque é um covarde, ou porque quer fazer ela valer, assim se sentindo livre do sentimento de culpa quando imputa sua negação a alguém, ou seja, quer manter uma amizade depois de dar o fora em alguém. Um covarde também. Pois se de um lado houve a força de vontade de aceitar que fora romance, não se queria mais nada naquele terreno, então do outro não se venha fazer sofrer mais ainda a quem derrubou o castelinho de sonhos, com a decepção própria, que garanto, é muito mais branda que a do outro. Lembrando ainda do que eu escrevi em um texto anterior “As pessoas frias não estão aqui pra mostrar sua superioridade. Não estamos aqui pra fazer questão de sermos chamados de metido ou antipaticos, estamos nos protegendo de vocês. Vocês são o real perigo, não nós. Vocês são efusivos, confundem os sentimentos, abusam da bondade, da amizade, dessa percrustração de barreira chamada intimidade. Favores... eu gosto de fazer favores por saber que as pessoas me devem alguma coisa. Vocês já me confundiram o máximo que puderam, me elogiaram e tentaram dissecar meus sentimentos pra não fazer nada com eles. Comprendam que sou mais simples e prático que vocês. Tudo que me move é interesse. A diferença é que eu admito.” As pessoas que dão o fora ainda se vêem, vez por outra, no direito de reclamar, além de imputar a frase do Shakespeare, não contentes em pacificamente oferecer sua amizade, elas tentam impor por chantagem emocional, revertendo a situação a seu favor. “Não sabia que era só isso que eu representava pra você, eu só sirvo pra isso, como amigo não?”. Tome o controle do seu mundo perante suas mãos e responda um sonífero: “É!”, porque, poxa, SÓ pra isso, tem coisa mais forte que o amor nesse sentido? A pessoa além de estar tentando reverter a situação pra si, acabou de renegar séculos de discussão sobre a dedicação de quem ama. Não se deixe ser logrado de sua magoa! REAJA! Você já foi logrado da possibilidade de um romance. Se não há realmente carência do sentimento de amizade, então pra que mantê-lo? Apenas por política de boa vizinhança, só se for. Mas de si mesmo você não precisa esconder.

Ainda mais longe, tem gente que admite que já tem demais, amigos suficientes. E já que as pessoas não te dão o que você procura, então nada mais há do que procurar nelas. E se isola, por que há um amontoado de tanto faz andando lá fora. Atrofiado é aquele que não percebe mais a necessidade das convenções sociais em um “oi” ou “bom dia”, ele caba sendo tão cristão por fim, por que todos pra ele se tornam iguais mesmo, qual a necessidade de um tratamento que não a indiferença pra pessoas iguais? Você falou com uma falou com todas, não?

E por fim: não que outras pessoas, amigos realmente, sejam culpadas pelo que acontece nessa linha tão instável da vida, o romance, mas se você não tem o que quer, é continuar dando o que você não quer ou não tem mais apenas por uma aparente obrigação. Se desvencilhar da imposição de beijar, se importar, e dar abraços faz bem de vez em quando. Oi, como vai tudo bem é um tapa na cara de um ser humano. Claro que não está tudo bem, quer ouvir minhas reclamações? Não quer, realmente não, né? Então ta, sai fora. E tipo, o carinho vem de dentro; gatos! Gatos tem uma personalidade exemplar, você pode tê-los criado a pão de ló, e eles são ariscos aos seus carinhos quando adultos, eles são mansos, não arranham, só se muitos irritados, porque não foram mal tratados na rua mas criados dentro de um lar tranqüilo, mas nem por isso são obrigatoriamente mimosos. E às vezes são. Às vezes dois gatos criados do mesmo modo são totalmente diferentes, como dois irmãos seres humanos o são, portanto, tomemos leigamente que isso vem de dentro não de fora. Aceitem seus amigos com atrofia de sentimentos, ariscos a carinho e que não conseguem pronunciar eu te amo. Vocês nunca conseguirão encontrar mais sinceridade que isso, o fato é que não gostamos de sinceridade, por isso não nos agradam esses estranhos seres que se esquivam de contato físico e emocional, se eles pudessem seriam tão sinceros com vocês que doeria nos nervos.

Então, nos atemos a ser sinceros com nós mesmo.

Eu sou Gustáve Caligari: eu não consigo mais dizer eu te amo, eu não gosto de bom dia de pessoas estranhas, nem abraço, nem beijo, nem nenhuma intimidade forçada. Das pessoas conhecidas, algumas são delicadas e outras não, alguns toques invadem e outros confortam, alguns pesam. Porém ainda acho que olhar nos olhos é necessário, aliás, atalha muitas coisas, às vezes eles não me chamam atenção então não sinto necessidade de olhar nunca mais, nem de mostrar os meus. E acho que para o infortúnio da pessoa, isso se resume ao fato de que ela é desinteressante pra mim. Eu detesto pieguice, não acho que alguém possa ou deva ser tão fraco que realmente devamos nos importar com o que dizer a ela, apenas devemos evitar, porque nossa opinião não é dogma. Desacredito no resultado da demonstração de carência; esqueci como é ser sentimental, às vezes esqueço que as pessoas a minha volta são, quando eu tornei tudo mais racional, mas não desacredito que eu mesmo possa a voltar a ter sentimentos fortes um dia. Mas não acho que isso virá de mim, assim como essa situação atual não foi uma escolha também, foi uma conseqüência. Eu sou como um teórico do amor, houve épocas em que eu nem suportava a menção disso ou sexo. Hoje eu vivo como um estudioso de religião, para o qual é uma prática sem fé alguma, apenas teoria. Eu perdi a paixão, não venha me cobrar o que eu não tenho, C'est La Vie.

Finais são bençãos ambivalentes.